Cristiano Alves
Quem aplaudiu Joaquim Barbosa agora demoniza Moraes: a lei não escolhe lado

O esperneio contra o ministro Alexandre de Moraes, hoje transformado em alvo preferencial da militância bolsonarista, revela não apenas a disputa política em torno do Supremo Tribunal Federal, mas também uma profunda hipocrisia histórica. Os mesmos que agora acusam o STF de “perseguição” foram, não faz muito tempo, os maiores entusiastas do rigor da Corte quando o alvo eram Lula, Dilma Rousseff e o PT.
Basta lembrar: Joaquim Barbosa foi alçado à condição de herói nacional ao conduzir com mão de ferro o julgamento do mensalão. Celso de Mello e Ayres Britto, cada um à sua maneira, também cravaram decisões duras contra o governo petista e seus aliados. Naquele período, o Supremo foi exaltado como bastião da moralidade, guardião da lei e última trincheira contra os “poderosos”. Não se ouvia falar em abuso de autoridade ou “Estado policial” – pelo contrário, aplaudia-se de pé cada voto, cada sentença, cada gesto simbólico.
Agora, quando Alexandre de Moraes aplica a mesma rigidez – desta vez contra Bolsonaro e seus apoiadores –, o STF virou vilão, e os aplausos se converteram em berros de revolta. A incoerência é evidente: quem antes festejava condenações transmitidas ao vivo hoje clama por “liberdade” e acusa “perseguição política”. A verdade é que, quando a lei atinge o adversário, é justiça; quando alcança os seus, vira abuso.
O Supremo não pode se curvar a essa seletividade oportunista. Sua função é clara: aplicar a Constituição de forma imparcial, doa a quem doer. Se Moraes hoje concentra holofotes, é porque cumpre, com o mesmo rigor dos seus antecessores, o papel que se espera de um ministro da mais alta Corte. O que mudou não foi o STF – foi a conveniência política de quem agora se vê na mira da Justiça.
“Pau que bate em Chico, também bate em Francisco” nunca foi tão atual. Quem ontem celebrou a guilhotina política de adversários precisa compreender que a lâmina da lei não se desgasta com o tempo nem escolhe o pescoço que corta. Se Joaquim Barbosa era celebrado ao julgar os mensaleiros, por que Alexandre de Moraes seria “ditador” ao responsabilizar quem ataca as instituições ou ameaça o processo democrático?
O Supremo não existe para satisfazer paixões políticas, mas para garantir que a lei não seja refém do humor das ruas ou das conveniências do poder. Quem hoje tenta deslegitimá-lo porque não gosta dos réus de plantão demonstra não entender – ou não aceitar – a essência da democracia. Justiça seletiva não é justiça; é vingança.
E se há algo que o Brasil não pode mais tolerar, é a tentativa de transformar sua Corte Constitucional em palco de torcida organizada. O STF não tem lado – tem dever. E o dever é simples e inegociável: manter a lei acima de todos, inclusive daqueles que agora a contestam porque, enfim, sentiram o peso que antes aplaudiam de pé.
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