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Cristiano Alves

O que Felca nos desenha

REPRODUÇÃO YOUTUBE
O que Felca nos desenha

O vídeo “Adultização” de Felca rasga uma cortina de normalização que há décadas esconde — sob a aparência de celebração familiar ou entretenimento — um processo civilizacional de dano: a conversão da infância em produto. Não se trata de um fenômeno novo; trata-se, antes, de uma prática que ganhou escala e monetização com as plataformas digitais. Os números deixam isso indisputavelmente claro: as primeiras estimativas globais recentes da UNICEF apontam que mais de 370 milhões de mulheres e meninas sofreram violência sexual durante a infância, e que aproximadamente 1 em cada 8 meninas foi vítima de estupro ou agressão sexual antes dos 18 anos — e, se incluirmos formas não-contato de violência sexual, a taxa sobe ainda mais. Esses não são alarmismos morais abstratos; são feridas de saúde pública com consequências mensuráveis na saúde mental, no desenvolvimento e na vulnerabilidade a novos abusos

No Brasil, onde a ferida tem faces conhecidas e antigas, a data simbólica é simbólica por um motivo: em 18 de maio de 1973 Araceli Cabrera Crespo, menina de oito anos, foi sequestrada, drogada, violentada sexualmente e assassinada — um crime que se tornou marco para a mobilização contra o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes e que hoje é lembrado no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Esse passado, longe de ser apenas memória, explica por que a exposição atual de menores em redes sociais — muitas vezes incentivada por pais em busca de renda ou visibilidade — precisa ser lida como continuação de uma cultura que normaliza a instrumentalização do corpo infantil.

A naturalização é política e econômica: quando a atenção vira receita, perdem-se limites. Estudos de campo e relatórios regionais mostram taxas alarmantes de exploração comercial sexual de crianças em áreas específicas do Brasil — por exemplo, pesquisas recentes indicam prevalência elevada em algumas regiões metropolitanas, com estimativas locais que chegam a 1 em 6 jovens mulheres tendo convivido com formas de exploração comercial na infância ou adolescência. Somam-se a isso dados de fiscalização internacional que colocam o Brasil entre os países com maior número de denúncias de páginas que distribuem conteúdo de abuso sexual infantil, sinalizando não apenas a amplitude do problema, mas também sua presença vigorosa no espaço online.

Diante desse quadro, qualquer discurso que reduza a resposta à “educação dos pais” ou a um cânone de liberdade de expressão é insuficiente e moralmente complacente. Não se trata de censura; trata-se de desenhar fronteiras públicas sobre o que é inexoravelmente lesivo. A lógica de responsabilização exclusiva da família falha em três pontos essenciais: primeiro, porque os algoritmos e estruturas de plataforma amplificam e monetizam o conteúdo independentemente da vontade dos cuidadores; segundo, porque a captura econômica de atenção cria incentivos perversos que corroem juízos de cuidado; terceiro, porque nem todas as famílias dispõem de ferramentas, conhecimento ou autoridade para enfrentar redes criminosas que operam globalmente. Por isso, a solução deve ser sistêmica: regulação que torne as plataformas responsáveis pela remoção imediata e pela auditoria de conteúdos envolvendo menores; congelamento de monetização em perfis que exponham crianças até investigação; tipificação clara de exploração econômica da imagem infantil; unidades especializadas de investigação e atendimento multidisciplinar; e investimento robusto em prevenção e em serviços de proteção que não deleguem a totalidade da fiscalização ao lar. A literatura especializada e os organismos internacionais deixam claro que apenas medidas fragmentárias não bastam — é preciso arquitetura institucional.

Ser taxativo, portanto, é dizer sem meias palavras: permitir que a infância seja patrimônio de plataformas e mercados é aceitar, com aparência de indiferença, que geremos vítimas em série. O ato de expor crianças em contextos sexualizados não é um erro de estética; é uma prática de dano que exige reparação, prevenção e punição quando houver lucro ou coação. Se não transformarmos o choque moral — aquele que desembaça a cortina quando vídeos como o “Adultização” provêm à tona — em sanções legais, políticas públicas e vigilância institucional permanente, voltaremos a dormir em penumbra. E não podemos mais fingir que essa penumbra é inocente: ela é conivente.

Se há, finalmente, uma lição civilizacional clara aqui, ela é esta: proteger a infância não é recair na censura, é afirmar limites democráticos e institucionais que preservem o direito inalienável de crianças e adolescentes ao desenvolvimento — livres de mercantilização, de exposição predatória e do peso irreparável da adultização precoce. É uma escolha política; e, como toda escolha política, exige coragem e medidas concretas — agora. 



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