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Cristiano Alves

O Brasil precisa (urgentemente) sair do ringue ideológico

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O Brasil precisa (urgentemente) sair do ringue ideológico

Há, no Brasil contemporâneo, uma insistência quase fanática em reduzir o debate político a uma dicotomia primitiva: ou se está com a direita bolsonarista, ou se está com a esquerda lulista — como se não houvesse qualquer possibilidade de pensamento autônomo fora desse eixo ideológico deformado. O que deveria ser um campo fértil de ideias, disputas legítimas e construção coletiva de soluções para um país marcado por desigualdades históricas, tornou-se um território hostil, contaminado por uma guerra simbólica que transforma qualquer tentativa de ponderação em silêncio cúmplice ou covardia moral.

Essa lógica binária, alimentada diariamente por algoritmos, militâncias inflamadas e lideranças populistas, não apenas empobrece o debate público: ela o aniquila. Substitui a razão pela reação, o argumento pela ofensa, a crítica pela caricatura. Nesse ambiente, quem se recusa a aderir cegamente a um dos polos passa a ser visto como um inimigo por ambos — o "isentão", o "morno", o "em cima do muro", como se a recusa ao extremismo fosse, por si só, uma falha ética ou intelectual.

Mas é justamente o oposto. Rejeitar a polarização não é alienação. É um exercício profundo de consciência política. É compreender que há inteligência, sensibilidade e responsabilidade para além da mitologia bolsonarista ou da ortodoxia petista. É perceber que a democracia se fragiliza quando o debate se transforma em guerra, e que a república se perde quando a lógica tribal substitui a institucionalidade.

O radicalismo, de direita ou de esquerda, está fadado ao fracasso — não apenas porque se alimenta de exclusões e ressentimentos, mas porque é estruturalmente incapaz de oferecer respostas duradouras para os dilemas complexos da sociedade brasileira. O que ambos os extremos têm em comum é a crença de que o outro lado não deve apenas ser derrotado, mas eliminado do campo político. E é aí que reside o perigo: essa lógica não admite pluralidade, diálogo, nem reconstrução. Apenas ruína.

Por isso, é urgente resgatar e valorizar o chamado "limbo político" — esse espaço intermediário, onde habitam cidadãos críticos, céticos quanto a promessas messiânicas, mas profundamente comprometidos com a reconstrução do país. São eles, muitas vezes silenciosos, que entendem que política não é grito, mas escuta; não é culto à personalidade, mas pacto social.

É nesse terreno — hoje desprezado pelas estruturas tradicionais de poder — que pode brotar uma nova racionalidade política. Uma racionalidade que recuse a estética do confronto permanente, que valorize a institucionalidade sem cair no imobilismo, que abrace a justiça social sem flertar com o populismo fiscal, e que promova a liberdade sem tolerar o autoritarismo.

Enquanto insistirmos em ver o país como um jogo de “nós contra eles”, o Brasil seguirá oscilando entre rupturas e retrocessos. Mas há, sim, vida inteligente fora da polarização. O desafio é reconhecer essa inteligência como legítima — e, mais do que isso, necessária para nos tirar do estado vexatório, perigoso e cruel em que a política brasileira se encontra há pelo menos uma década.



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