Cristiano Alves
Leave me alone (me deixem em paz)

Há uma pressa quase infantil em rotular. Digo que creio em justiça social e, antes que minha frase termine, já há quem me declare comunista, como se Karl Marx tivesse escrito o único evangelho possível para a igualdade. É uma miopia histórica: o socialismo não é um trilho único; é um território vasto, onde caminhos diversos se entrelaçam. O meu é o do socialismo democrático, que não deseja esmagar a liberdade em nome da igualdade, mas fazer com que ambas possam respirar o mesmo ar.
Não nego o capitalismo. Ele é, em muitos sentidos, o pulso que mantém o corpo da civilização em movimento. Mas até um coração saudável precisa de ritmo; um batimento fora de compasso pode matar. O problema não é a existência da hierarquia social, mas o abismo intransponível que ela cria.
Penso, então, no asteroide 16 Psique. Ali, flutuando no silêncio cósmico, repousa uma fortuna incalculável de metais preciosos — o suficiente, dizem, para tornar cada ser humano bilionário. É tentador imaginar sua captura e partilha como um ato de redenção econômica global. Mas a fantasia é frágil: o ouro em excesso perderia valor, os mercados ruiriam, e o planeta, sedento por riqueza, beberia até a própria ruína. É a parábola perfeita: nem toda abundância é libertadora, e nem toda partilha é justa.
O que busco não é o nivelamento absoluto, mas uma régua mais alta para medir o sucesso. Continuaríamos a depender de agricultores, professores, médicos, engenheiros, entregadores; continuaríamos a subir degraus, mas sem precisar pisar em ninguém para sentir que avançamos. A dignidade não se torna menos valiosa por ser compartilhada.
Não quero moldar o mundo à minha imagem. Quero apenas o direito de viver segundo o meu ideal e, dentro dele, ajudar quem sofre. Não consigo — e talvez essa seja minha maior fraqueza ou minha única força — adormecer tranquilamente enquanto outros enfrentam a noite de estômago vazio.
Reconheço que há mérito no esforço de quem constrói grandes impérios financeiros. Mas quando 1% da humanidade detém recursos capazes de erradicar a fome e escolhe não fazê-lo, já não falamos de economia, mas de ética. O socialismo democrático que defendo é menos um sistema e mais um instinto: o de acreditar que o progresso de um só tem pouco sentido quando a miséria de muitos é o preço cobrado por ele.
Talvez 16 Psique jamais chegue à Terra e espero que não chegue. Mas aqui, neste pequeno planeta azul, há ouro suficiente para todos respirarmos melhor. Falta-nos apenas coragem para redesenhar o mapa da partilha.
COMENTÁRIOS