Cristiano Alves
O que Trump entende de Direitos Humanos?

Talvez Donald Trump entenda de Direitos Humanos como quem contempla um mapa antigo e o vê apenas como um pedaço de papel decorativo — ignorando que ali estão traçadas as rotas de dignidade, liberdade e justiça que orientaram séculos de civilização. Ele sabe que os direitos existem, mas seu interesse por eles é mais tático do que ético, mais performático do que substancial.
Trump se move no terreno dos direitos como um empresário no tabuleiro de um jogo imobiliário: avalia quais propriedades valem o investimento, quais podem ser hipotecadas e quais devem ser demolidas para abrir espaço a um novo arranha-céu. A vida humana, nesse cálculo, não é uma essência inviolável, mas uma variável negociável — algo que pode ser transformado em número, slogan ou obstáculo, dependendo das circunstâncias.
Na sua retórica, liberdade de imprensa é virtuosa enquanto serve como vitrine de sua própria imagem; protestos populares são legítimos enquanto defendem suas causas; justiça é bem-vinda quando absolve aliados e pune adversários. É uma lógica que não nega frontalmente a existência dos direitos humanos, mas os reduz a uma espécie de moeda política, intercambiável e volátil, cujo valor depende de quem está segurando o poder.
O problema, nesse caso, não é a ignorância — seria até mais fácil lidar com ela. O risco real está na compreensão estratégica: Trump entende perfeitamente que direitos humanos são mecanismos de freio ao poder e, por isso, procura reinterpretá-los de forma a que o freio nunca se aplique ao próprio carro que dirige. É uma engenharia política calculada, onde “direito” se converte em privilégio e “humano” se fragmenta em categorias de conveniência.
Talvez, no fundo, o que Trump entende de direitos humanos seja que eles não são inevitáveis nem autoexecutáveis. Eles precisam de guardiões — e, se o guardião é o próprio governante, a chave do cofre da liberdade pode se transformar rapidamente numa arma contra quem dela mais precisa. É aí que a compreensão dele se torna perigosa: não é a negação grosseira, mas a erosão silenciosa, travestida de legalidade, empacotada em discursos sobre “segurança”, “ordem” e “grandeza nacional”.
O que Trump entende de Direitos Humanos? Entende que, para seu projeto de poder, eles são uma pedra no sapato. E que, quando se tem a caneta mais poderosa do mundo, é possível transformá-la num rolo compressor — e chamar isso de patriotismo.
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